Para acariciar o coração
Andando na rua, à noite, com Luiz, lembrei de uma conversa que tive com uma jornalista em Curitiba. Eu comentava que iria ver uma peça reconhecidamente trash. E ela: "Mas pq ver algo tão ruim?". Eu: "Ah, acho que é engraçado". Então ela me disse um negócio que ficou gravado na minha cabeça. Para sempre. Que procurava ver coisas bonitas. Que o coração era algo delicadíssimo, como um cristal fininho, que quebrava fácil. Que era importante consumir o belo para cada vez mais lustrar esse material frágil. Bem, o texto é bem cafoninha sim, por supuesto. Mas há uma verdade nesse troço. E eu ando pensando, muito, nas coisas bonitas que nos acariciam o coração, principalmente em tempos de porrada na cachola. Me lembrei, assim, de algumas que já fizeram - e fazem - um incrível bem ao meu coração de nego.

- O filme Filhos do Paraíso
- O dia em que Mateus tava na janela e começou a chover fininho. Ele virou pra mim e disse "Mãe, tá faiscando", em vez de "chuviscando".
- A hora em que Lucia, de Lucia e o Sexo, reencontra seu amor e a ilha começa a se mover sob seus pés
- Comer arroz doce, bem geladinho
- Ouvir Luiz começando a frase "Ô, minha flor, tu..."
- Todas as manhãs que escuto Mateus me chamando lá do quarto dele
- Beber com meus irmãos (tirando Flávia Moraes, é tudo pinguço)
- Torch, do Soft Cell
- In the heat of the Morning, Bowie
- Ver o dia ir embora deitada na rede do terraço, um olho dormindo e o outro vendo o céu
- Bonito, Mato Grosso do Sul, que deveria se chamar Maravilhosa.
- Minha querida Holly Golightly em Breakfast at Tiffany's

- Ver Feijoada (nosso cachorro, a cara de Sartre) virar a cabeça pra mim toda vez que eu faço o mesmo com ele
- Manhãs de sábado
- Tomar banho de mar com Luiz entre Japaratinga e Maragogi
- Usar a camisola branca grandona que eu comprei num brexó em Paris (é linda, amapôs, linda)
- As fotos de Richard Avedon

- A primeira vez que Rebeca vê José Arcadio depois que ele volta do mar, em Cem anos...
- ... E o amor de Florentino por Fermina
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Me lembrei rapidamente de tantas outras coisas que me acordaram, cada uma à sua maneira, como uma coleção de Herchcovitch que me fez chorar, as quintas-feiras que Barba traz sushi pra mim, Mateus levantando a blusa pra que eu alise a barriga dele. Coisas importantíssimas na minha vida que, definitivamente, vai ter mais espaço para coisas bonitas.
Escrito por Fermina Daza às 17h29
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