O aburguesamento do cotidiano (ou: de como eu estou me tornando uma Amélia)

Onde estão as queen bitches? Viraram donas de casa que consomem apenas orgânicos!! socorro!!
Hoje eu não fui trabalhar. Estou gripada, dolorida, enjoada, irritada, sensível. Já chorei vendo (revendo) o último e meloso episódio de Sex and the City (eu vou parar, Luiz, eu vou parar), já comi doce para o gosto de cabo de guarda-chuva ir embora. Nada feito. Me sinto culpada de não ter ido trabalhar, mas eu admito: é bom, mesmo doente ficar em casa com meu querido filho me torrando meu uterozinho de titânio. É bom ficar lendo. É bom ter um tempinho pra ficar baixando música... e eu estou enlouquecida baixando tudo para minha festa de aniversário, no próximo mês (12 de novembro, não esqueçam a minha Caloi). Tenho coisas ótimas como Low e Heroes (claro q é de Bowie, porra), MIA, Arctic Monkeys (I Bet That You Look Good On The Dancefloor é um título ótimo para uma música) e outras coisas deliciosas. Mas, enfiada no sofá com o corpo empapado de suor e os olhos marejados de lágrimas ao ver Charlote chorando quando recebe a foto de seu bebê chinês, percebi uma coisa reveladora: estou virando uma Amélia. Nos últimos finais de semana eu só penso em cozinhar, fazer peixe no sal grosso, fazer peixe assado, fazer berinjela, abobrinha. Só penso em forrar os sofás. Em pintar a sala com cores ótimas. Em desenhar flores na parede da escada. Em pagar os dois meses de geladeira atrasados por incompetencia financeira... me ajudem, amigos. Somado a tudo isso, e ainda mais assustador: ultimamente eu venho sentindo uma vontade louca de tomar cana. Cachaça. Delícia tomar uma cana cozinhando. Mas pode ser um bom vinho ruim, daqueles de 10 real no Pão de Açúcar (aliás, esse supermercado deveria patrocinar esse blog). Dia desses eu botei uma garrafa na mesa e Luiz riu amarelo. Já estávamos tomando um resto de saquê que eu trouxe da Liberdade. Mas eu queria mais. Queria cana. E não há nada de bonito em uma Amélia bêbada... Prometo que deixarei essa vida de lado e voltarei para a night em vez de ver mais um programa de culinária. Prometo que acordarei com os olhos borrados e olheiras de panda em vez de dedicar horas à pesquisa de tecidos estampados para a chaise longue (claro que eu tenho uma, queridos!). Vou parar agora com essa safadeza pequeno-burguesa e me dedicar mais fielmente à vida pregressa! Chega de orgânicos! Chega de pão centeio! Chega de novos molhos! O mundo não precisa de mais ninguém fumando Free ultra-mega-hiper-light!! É preciso preservar a memoria daqueles que morreram por nós, como Janis, Jim, Hendrix, Elvis, Kurt e tantos outros! Mirem-se no meu exemplo e vejam no que eu me tornei!!! Uma louca que comprou Herbalife! Que só pensa em comprar um vestido de Adriana Barra! Em emagrecer e ficar com os cabelos hidratados! Mas prometo que tudo isso irá mudar. Domingo, aos pés de Julian Casablancas, eu prestarei meu juramento. Nada vai me transformar numa triste senhora de 31 anos que largou a carne vermelha e nunca mais foi vista. (...) Agora, com licença. Preciso comprar uma cioba ótima que vi no Pão... talvez fique bom com um bom molho de manjericão. Mas serei punk rock. Desta vez, não vou comprar orgânico. ....................................
(Ele me consola agora com essa canção:) Rock'n'roll Suicide
Time takes a cigarette, puts it in your mouth
You pull on your finger, then another finger, then your cigarette
The wall-to-wall is calling, it lingers, then you forget
Ohhh, you're a rock 'n' roll suicide
You're too old to lose it, too young to choose it
And the clocks waits so patiently on your song
You walk past a cafe but you don't eat when you've lived too long
Oh, no, no, no, you're a rock 'n' roll suciide
Chev brakes are snarling as you stumble across the road
But the day breaks instead so you hurry home
Don't let the sun blast your shadow
Don't let the milk float ride your mind
They're so natural - religiously unkind
Oh no love! you're not alone
You're watching yourself but you're too unfair
You got your head all tangled up but if I could only make you care
Oh no love! you're not alone
No matter what or who you've been
No matter when or where you've seen
All the knives seem to lacerate your brain
I've had my share, I'll help you with the pain
You're not alone
Just turn on with me and you're not alone
Let's turn on with me and you're not alone
Let's turn on and be not alone
Gimme your hands cause you're wonderful
Gimme your hands cause you're wonderful
Oh gimme your hands.
Escrito por Fermina Daza às 15h01
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